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Postado em por caiopallu (link)
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Vejam a foto desta mulher:
Sua namorada não está do seu lado lendo este post, então pode admitir sem medo: você nunca viu, de perto, uma mulher tão bonita e tão bem-sucedida como essa. Nem na sua casa, nem no seu trabalho, nem na sua faculdade (não, aquela loira da sua sala era uma coisa de louco, mas nem tanto quanto essa), nem na sua cidade, nem nas suas viagens.
Nunca. E provavelmente nunca verá – contente-se.
Mas você assiste filmes em que ela participa. Tem o prazer de admirar, por cerca de duas horas, não apenas a beleza dessa mulher, mas também, por que não, seu talento (ora, talento sim, senhor, estamos falando de alguém que tem um Oscar e três Globos de Ouro em casa, enquanto a maioria de nós sequer tem troféu de goleiro menos vazado no campeonato dente de leite do clube da nossa cidade).
E pronto, terminou o filme, achou legal (v. O Colecionador de Ossos), achou um lixo (v. Lara Croft: Tomb Raider), comentou um pouco com a namorada, saiu do shopping, chegou no carro, foi sair do estacionamento, esqueceu de pagar o estacionamento, ficou alucinado de ódio, voltou pro shopping, pagou, voltou pro carro e foi embora pra casa dizendo que na próxima vez para na rua porque os preços de estacionamento de shopping estão cada vez mais obscenos.
A admiração pela Angelina Jolie, a satisfação pelo bom filme ou de chateação pelo filme ruim acabam logo ali no ódio de pagar o estacionamento (e olhe lá!) e passam a não ter nenhuma influência no seu estado de espírito. Duas horas bastantes em si.
Se o sujeito, porém, chega no bar e começa a dizer que quem ele ama mesmo é a Angelina Jolie, pela beleza, pelo talento ou por outras coisas que apareceram na televisão sobre essa mulher, aí é caso dos amigos, depois de pararem de rir, enquadrarem o tal sujeito pra ver se ele sabe do que está falando. Se está num quadro clínico delicado, se está no meio de um delírio pela sétima Belco, se sabe o que é amor ou se está usando essas palavras apenas como hipérbole para aquilo que poderia ser, se tanto, afeição ou simpatia.
Porque, sabemos, não dá pra colocar na mesma categoria o que se sente uma mulher com quem não se tem contato de nenhum tipo e o amor com aquela garota que se vê, que se toca, que se sente, com quem se relaciona, com quem interage, com quem vive.
O mesmo se aplica no que se refere a torcer para um clube.
De um lado, temos a relação do sujeito com seu time local. Um clube que, pela proximidade, faz você sentir não apenas paixão e amor por ele, mas que, de alguma forma, parece te amar de volta, estar junto com você. Ao pedir sua presença e sua voz naquela luta contra o rebaixamento. Ao te pedir para vaiar o camisa 10 do adversário toda hora que ele toca na bola porque ele está acabando com o jogo. Ao tocar a bola na defesa durante uma goleada para você ter a chance de gritar “olé”. Ao te pedir para subir num alambrado para xingar o jogador adversário que vai bater o escanteio (e, quando o adversário erra, você volta para o seu lugar rindo, satisfeito, como que dizendo “fui eu que fiz ele errar!”). Ao te oferecer, mesmo quando a sua vida não está lá tão boa, aquele gol no último minuto que te faz erguer um pouco a cabeça no dia seguinte na rua porque “pelo menos o XV de Piracicaba ganhou hoje”. Ao te dar razão para passar rindo discretamente, com sua camisa do Fluminense, na frente do seu chefe vascaíno, cujo time perdeu ontem com dois gols de SuperÉzio. Ao te pedir defesa na escola perante os colegas em razão do Corinthians ter levado um baile no domingo.
Um clube, enfim, que concretamente te acompanhou e influenciou sua vida e que, por isso, criou com você um caso de amor de verdade, com simbiose, com interação, com companheirismo, com fidelidade total e absoluta, com tapas e beijos sentidos na pele.
Do outro lado, temos ela, a nova, rica, européia, perfumada, chique, glamorosa e beckhamizada relação do sujeito com o clube europeu. Com o clube que o sujeito nunca viu no campo. Com o clube que o sujeito só assistiu tomando Toddy em casa. Com o clube que o sujeito ouve o tempo todo falar que é cheiroso (mas que o sujeito nunca sentiu o tal cheiro). Com o clube que o sujeito tem a camisa, mas quando sai na rua com ela não tem repercussão, ninguém nota (a não ser pela beleza), ninguém buzina e grita “aê, Santooos, é nóis!” ou “chupa, bambi, aqui é Curíntia!”. Com o clube que não fala a língua do sujeito e que não tem jogadores que tenham qualquer tipo de identidade com o sujeito. Com o clube que, quer perca, quer ganhe, não faz do dia seguinte na faculdade ou no trabalho algo diferente, porque o sujeito não vai tirar sarro de ninguém e nem ser objeto de gozação, porque simplesmente ninguém se importa com aquilo que, por tantas razões derivadas da distância, não concerne e não afeta o mundo real de quem vive no Brasil.
Nota a diferença?
Admirar o Liverpool, a Internazionale, o Barcelona, o Bayern é natural, compreensível sob vários pontos de vista – o produto que cada vez mais vemos na televisão é sensacional, imagem HD, campo que é melhor que o tapete da minha casa, jogadores de toda parte do planeta, camisa com estilo, comentaristas afirmando serem os melhores times da história (embora nunca tenham visto times de outrora que fizeram e ganharam tanto ou mais que os que passam hoje na TV a cabo). Uma admiração natural e compreensível como é aquela que temos pela Angelina Jolie.
Mas passar do ponto da admiração e dizer torcer genuinamente pro Real Madrid não tem nada de natural. Nada de justificável.
Não se justifica nem mesmo pela ausência, em um ano ou outro, de bons campeonatos aqui no país ( afinal, mantendo o paralelo, quem larga a namorada de anos, aquela com quem tanta coisa foi vivida e compartilhada, porque as celulites que nela apareceram não constam das coxas da Rihanna?).
Essa “torcida genuína” pelos Chelsea da vida somente pode ser explicada por essa falta, hoje, do contato das pessoas com a realidade em que vivem em favor da realidade que vemos apenas através de telas, cabos e ondas. Ou por aquela mania Mulheres Ricas de querer se afastar do contexto em que vive pra dizer-se parte,na verdade, de uma outra realidade, com sotaque francês e mordomo pra servir uma Perrier pois “a água que vendem aqui tem muito bicarbonato”.
Porque, se torcer para um clube é, talvez, uma das formas mais complexas de amor que se tem notícia, então não há, tal qual ocorre na questão amorosa, como dizer que se torce por um clube à cuja realidade não se pertence, justamente porque não há como comparar esse tipo de torcida àquela que se tem pelo clube com quem você troca tapas e beijos de verdade. É exatamente o mesmo de dizer que ama a Angelina Jolie, que não dormiu porque a Natalie Portman não sai da sua cabeça ou que tomou um porre porque ficou sabendo que a Megan Fox casou.
Então, na próxima vez que alguém disser “sou torcedor dos Reds”, “vai Curíntia, não! Aqui é Hala, Madrid!” ou coisas do gênero, peça pro garçom servir um crème brûlée pro camarada e saia dizendo “desculpa, tenho que ir, se eu ficar até tarde assim a Halle Berry jura que dessa vez ela pede o divórcio”.
Trei Dedo
Caio Pallú
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