Por Luís Felipe dos Santos, em 13/01/2016
https://impedimento.wordpress.com/2010/01/13/o-el-dorado-parte-1-nascidos-da-revolta/ (Não achei a 'parte dois, no site)
A Divisão Maior do futebol colombiano, que levou para Bogotá astros como Di Stéfano e Pedernera – os dois maiores jogadores da Argentina na sua época – é uma das coisas mais mal explicadas da história do futebol mundial. Como poderia um país que nunca teve uma economia pujante no cenário mundial fazer o melhor campeonato do mundo? A explicação passa por uma época na qual o futebol ainda não tinha 20 anos de profissionalismo nas maiores ligas mundiais, e uma entidade máxima como a Fifa não tinha nem 10% do poder de hoje em dia. Hoje, a Fifa interfere e/ou faz recomendações nos mais comezinhos aspectos das ligas regionais – no início dos anos 50, as notícias chegavam de carta e geralmente de navio, o que permitia distorções como as ocorridas a partir da intervenção de Alfonso Senior, presidente do Millionarios de Bogotá.
No final dos anos 40 uma das tantas mobilizações dos jogadores argentinos reivindicava salários compatíveis com o que os clubes ganhavam, nas bilheterias e transferências. A Argentina já tinha uma liga profissional, mas os vencimentos dos atletas ainda tinham valores pouco mais que amadores. O River Plate daquela época tinha o melhor time do continente – talvez, o melhor do mundo – com a máquina de Labruna, Loustau, Moreno e Reyes, além do próprio Di Stéfano. Era a segunda versão de um grande time que também teve Pedernera, e era chamado pela imprensa de “A Elétrica”. O presidente era Antonio Vespúcio Liberti – o atual nome do Monumental de Nuñez – que no verão de 1949 desdenha do sindicato criado pela “Flecha Loira” e por Nestor Rossi, os “Futebolistas Argentinos Agremiados”. As exigências de melhores salários vão para o fundo da gaveta do seu escritório. O campeonato fica esvaziado pela greve dos melhores jogadores e muitos dos clubes acabam contratando jogadores na lavanderia, no mercado, no açougue e na estiva do porto para completar seus times.
Alfonso Senior vê nisso uma valiosa oportunidade. A sua ideia é implantar o futebol profissional na Colômbia. Para isso, toma conta do Millonarios, um time que não tinha um clube. Não passava de uma agremiação de jogadores que não tinha nenhuma sede e era composta por estudantes e recém bacharéis da universidade local, jogando verão sim, verão não no campeonato local. Senior, empresário, vê as multidões que são levadas a cada domingo para ver o esporte e decide ganhar dinheiro com isso. Ao lado do comerciante Mauro Mórtola, nascido no Equador, chama os dirigentes dos principais clubes da época e assina com eles uma carta direcionada à Adefútbol, em 1948, dizendo que a federação é atrasada e eles vão criar um organismo próprio para dirigir o futebol. Nasce a Divisão Maior.
No dia seguinte, a sua secretária deve ter recebido um telegrama de boas vindas da Fifa, com as regras necessárias para filiar-se à entidade. Além de ter um regulamento que respeite as 17 do International Board, era preciso respeitar as diretrizes mundiais de transferências, estrangeiros e afins. Senior só lê a primeira parte, a que interessa ao público – a segunda, uma vez ignorada, rende mais dinheiro. O presidente do Millonarios tem a grande ideia de que não precisa pagar passes aos clubes: basta oferecer os melhores salários aos jogadores e uma passagem de avião só de ida. Essa história de limite de estrangeiros também é bobagem – joga quem quiser, quantos quiserem, que a globalização seja bem vinda aos campos cafeteros. Logo se espalha como um vírus o “El Dorado” colombiano, especialmente na Argentina, onde ninguém ganha dinheiro para vestir chuteiras. Um lugar onde não só se é bem pago como se é o jogador mais bem pago do mundo torna-se extremamente atraente.
A questão toda é que pegou mal. Muito mal. Se hoje o fato de oferecer uma ótima proposta salarial para um jogador passando por cima do clube já é considerado uma ofensa, imaginem naquela época, muito menos profissional. A agressividade do dinheiro fez com que o futebol colombiano fosse considerado antipático por todas as federações do continente americano, indignadas com a perda de seus melhores atletas. Especialmente as mais empobrecidas, como a argentina e a peruana.
A questão ética tomou conta das reuniões da então incipiente Conmebol. Os queixumes dos presidentes das federações eram maioria sobre a irracionalidade de um torneio que não tinha qualquer compromisso com o desenvolvimento do futebol nacional, correspondia apenas a ganhar dinheiro e dar espetáculo (qualquer semelhança com o futebol espanhol não é mera coincidência). Sendo assim, foi criado um Pacto, chamado Pacto de Lima, em 1951: a farra tinha dois anos para acabar. Depois desses dois anos, os jogadores contratados sem pagamento de passe teriam de ser devolvidos aos seus clubes.
Alfredo Senior resmungou, mas deu de ombros. Começou a fazer excursões por todo o mundo para render o máximo que podia com o seu Millonarios. Ao fim da história, simplesmente vendeu os grandes jogadores, como Di Stéfano, envolvido numa complicada trama que lhe tirou do Barcelona e colocou no Real Madrid. O sonho do El Dorado havia se acabado.
Este texto foi publicado no blog Impedimento.wordpress.com, por Luís Felipe dos Santos, que prometera uma continuação não publicada (ou não encontrada por este que vos escreve)...
De qualquer forma, a continuação provavelmente contaria a história da transferência de Di Stefano para oBarcelona Real Madrid, time no qual aconteceu a parceria mais emblemática de todos os tempos, entre Di Stefano e Puskas...
Esta história, eu já havia contado neste blog, e você pode ler aqui.
De qualquer forma, a continuação provavelmente contaria a história da transferência de Di Stefano para o
Esta história, eu já havia contado neste blog, e você pode ler aqui.