sexta-feira, 26 de junho de 2015

Di Stéfano: A mais famosa transferência do futebol mundial


Por Vinicius Alexandre, do Blog Nou em 8 de julho de 2014
http://espnfc.espn.uol.com.br/barcelona/blog-nou/1109-di-stefano-poderia-ter-vestido-a-camisa-do-barcelona




A história da negociação dele com o Barcelona e que, acabou culminando com um contrato com o Real Madrid, foi muito bem contada por Vinicius Alexandre, do blog Nou, para o site da ESPN...






Di Stéfano marcou seu nome no Real Madrid e no futebol mundial. Um grande craque, que poderia ter vestido a camisa azul-grená, mas os fatores externos da época levaram o argentino para outro caminho. E mesmo nunca tendo vestido a camisa do Barcelona, ainda assim ele foi capaz de gravar seu nome na história do clube. 



O começo do interesse
Di Stefano já brilhava no futebol antes de se transferir para a Espanha. Ele jogava no Millionarios e era o artista do time pelo qual ganhou quatro vezes seguidas o Campeonato Colombiano, de 1949 a 1953. Era o responsável pelo sucesso da equipe.
Em 1952, o Millionarios enfrentou o Real Madrid em uma excursão. O ex-jogador, e na época olheiro (e lenda) do Barça, Pepe Samitier, assistiu ao jogo e não teve dúvidas: o Barça precisava de Di Stefano para se tornar imbatível.
No dia anterior, o presidente do Real Madrid na época, Santiago Bernabéu, estava em um programa de rádio com Di Stéfano e disse a um jornalista: "Esse jogador tem cheiro de bom futebol."
Aquele era o começo do interesse de dois rivais pelo mesmo jogador, e acabou se tornando uma das maiores disputas por uma contratação na história do futebol.

O acordo entre as partes
O Barça deixou as negociações a cargo de Ramón Trias Fargas. Ele precisava entrar em acordo com o Millonarios, onde o argentino jogava, com o River Plate, que tinha os direitos do craque, e o próprio Di Stéfano.
A negociação não envolvia simplesmente dois clubes. Havia uma intervenção do governo. Isso fica claro ao lermos uma carta enviada por Ramón a seu pai. A carta estava codificada, e nela ele explica que não telefonou porque seu telefone estava grampeado pelo governo, que alegava estar defendendo a integridade do estado Espanhol. Nessa carta, Ramón foi claro: o Barça havia chegado a um acordo com Di Stéfano e o River Plate.
Para negociar com o clube colombiano em que Di Stéfano jogava, o Millonarios, o Barça envolveu o ex-jogador Pepe Samitier, que por sua vez convocou seu amigo colombiano Joan Busquets, diretor do Santa Fé, outro grande clube da Colômbia, para ajudar nas negociações.
O envolvimento de Joan Busquets não foi bem visto na época, já que ele era diretor do maior rival do Millonarios e poderia estar agindo em benefício de seu próprio clube, o Santa Fé.
Busquets deu um ultimato ao Millonarios: ou aceitava a oferta do Barça, ou o clube levaria Di Stéfano para a Catalunha de qualquer forma, e com o consentimento do jogador.
O clube colombiano não aceitou a oferta, e durante uma excursão do Millonarios na Venezuela, Di Stéfano anunciou que não voltaria para a Colômbia. Em 17 de maio de 1953, Di Stefano e sua família chegaram à Barcelona, e a imprensa já tratava a negociação como encerrada.
Mas ainda faltava o acerto com o Millonarios. A estratégia do Barça, desde a escolha de um diretor de um clube rival, Busquets, até a fuga de Di Stéfano, prejudicou a negociação. E vendo os problemas que o Barça estava enfrentando, o Real Madrid entrou na briga pelo jogador, e contava com um aliado para isso.

A intervenção do governo
Na época, o Barcelona já contava com um grande jogador, o lendário húngaro Ladislao Kubala. A parceria entre ele e Di Stéfano era vista como letal, e transformaria o Barça em uma potência imbatível no futebol. Isso não era visto com bons olhos pelo governo espanhol, que preferia ver a dupla jogando pelo time da capital, o Real Madrid.
A Espanha vivia um regime fascista comandado pelo General Franco. A cultura da Catalunha era reprimida pelo governo, e a maior forma de expressão do povo catalão era o Barcelona. São contadas muitas histórias de favorecimento de outros clubes quando enfrentavam o Barça. Algumas delas eram verídicas. Outras, não passavam de conspiração.
Quando Barcelona e Real Madrid estavam negociando com o Millonarios, a Federação Espanhola de Futebol decretou uma lei banindo a contratação de jogadores estrangeiros.
Se a criação da lei por si só não deixavam claro os interesses do governo, a proposta da Federação não deixava dúvidas. Di Stéfano seria uma exceção à lei, contanto que o Barcelona não lutasse mais pela contratação do jogador, e dividisse ele com o Real Madrid.
A proposta dizia que nas temporadas 1953-1954 e 1956-1957, Di Stéfano jogaria pelo Madrid, enquanto nas temporadas 1954-1955 e 1957-1958 jogaria pelo Barça. Ao final da temporada 1957-1958 os dois clubes fariam um novo acordo para decidir o futuro do jogador.
Em 15 de setembro de 1953 os presidentes dos dois clubes assinaram o acordo. Uma semana depois, Marti Carreto, presidente do Barça, pressionado pela própria direção do clube após o acordo ser firmado, deixou a presidência do Barcelona.
Então, a direção interina do clube, antes mesmo do sucessor de Carreto ser escolhido, decidiu abandonar o acordo, e entregar Di Stéfano ao Real Madrid em troca de uma compensação monetária, 4,4 milhões de pesetas.
Os torcedores do Barça que viveram aquela época ficaram sonhando em como a parceria com Kubala teria funcionado. A compensação monetária que o Barça recebeu se mostrou ínfima perto do que o clube teria conquistado se o acordo inicial de dividir o jogador com o Real Madrid tivesse sido mantido. O ataque dos sonhos do Barça com Kubala e Di Stéfano, que ficou próximo de acontecer, terminou em um sonho que nunca iria se realizar.

Uma história para a eternidade
Perder um jogador para o seu maior rival já é uma história que fica marcada. Quando é no meio de uma transferência confusa, com intervenção do governo, e que tomou rumos inesperados, a história passa de uma derrota e se torna uma humilhação. É assim que o Barcelona considerou a transferência de Di Stéfano, e isso afeta os clubes até hoje.


Um exemplo recente disso e identificado com os brasileiros? Neymar.


Uma luta entre os dois grandes clubes da Espanha para contar com uma jóia sulamericana. Eu poderia estar falando de Di Stéfano, ou de Neymar, a frase serviria para os dois. E não sou apenas eu ou a torcida do Barça que vê as semelhanças. Ao quebrar a confidencialidade do contrato de Neymar esse ano, o presidente do Barcelona, Josep Maria Bartomeu, disse:


Jogos de futebol são vencidos no campo, não atrás de portas fechadas em escritórios. Nós perdemos Di Stéfano em um escritório, mas não perdemos Neymar.


Mais de 50 anos depois, a transferência de Di Stéfano ainda foi tema em uma frase do presidente do Barcelona. Mais uma prova do impacto dessa negociação na história do clube.

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