Por Conrado Cacace, do Resistência 1942 - 13 de abril de 2015http://espnfc.espn.uol.com.br/palmeiras/resistencia-1942/os-estaduais-e-a-vera-fischer
Os estaduais chegam a suas retas finais e dentro de três semanas o país vai conhecer seus primeiros campeões de 2015. Vai ter muita festa – e também muito choro –, quando algumas dezenas de taças forem erguidas pelos quatro cantos do país. Se bem que, no Rio, a fase de classificação já valeu taça.
Mas o fato é que já há alguns anos a repercussão dos estaduais dura apenas dois ou três dias. No meio da semana já haverá rodada da Libertadores e da Copa do Brasil, e no sábado já começa o Brasileirão, que é o que realmente interessa. Ninguém vai tratar os campeões com mais ou menos importância, os títulos estaduais já não impõem respeito como antes.
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Valia muito aparecer nesta capa nos tempos da Vera Fischer
Lembro da década de 80, quando a mulher mais espetacular do planeta era a Vera Fischer, a revista Placar lançava a edição dos campeões no fim do ano. A capa trazia os escudinhos dos 26 campeões estaduais, que normalmente terminavam em dezembro e ocupavam oito ou nove meses do calendário. O Brasileiro era um torneio de tiro curto, com grupos e um rápido mata-mata, cada ano com uma fórmula diferente – os altos custos das viagens eram um dos maiores problemas.
Os estaduais preenchiam o ano com fórmulas com vários turnos e cruzamentos mirabolantes. Depois de 40, até 50 jogos, os campeões estaduais erguiam taças gigantescas, apareciam dando voltas olímpicas no Fantástico e o escudo do campeão ia gloriosamente para a capa daPlacar. As férias de janeiro aconteciam sob o efeito dessas dezenas de taças levantadas, era assunto para semanas a fio.
Esses campeonatos serviam também para manterem os times do interior em atividade. Os grandes enfrentavam times menores que conquistaram seus espaços como adversários renhidos, que revelavam talentos que acabavam virando astros ao serem contratados pelos times da capital. No estado de São Paulo, camisas como a do América de Rio Preto, Ferroviária, Botafogo, Noroeste, Comercial, XV de Piracicaba, XV de Jaú, São Bento, Ponte e Guarani, além do Juventus, entre outros, dividiam espaço com os cinco grandes – para quem não sabe, os jogos contra o time do Canindé eram considerados clássicos. Os grandes quase sempre prevaleciam, mas os pequenos eram adversários de respeito. Conhecíamos boa parte das escalações desses times. Jogadores como Leão, Dudu, Luís Pereira e Nei, só para citar o esquadrão da segunda Academia, vieram de Comercial, Ferroviária e São Bento.
Com o barateamento dos voos, com as mudanças no calendário e na lei, os times pequenos de hoje viraram arremedos do que um dia foram. Os campeonatos são curtos e não repercutem no imaginário dos torcedores nas semanas seguintes. Tempos de Americana FC, Red Bull, Grêmio Barueri e Audax. Neste modelo, é amplamente discutível que o campeão seja de fato o melhor time do estado – o Ituano, que levou a taça no ano passado graças a duas paulistinhas (sem trocadilho) do zagueiro Alemão no Alan Kardec e no Thiago Ribeiro, fez o que mesmo no restante do ano?
Se a Vera Fischer entrar por uma porta onde houver alguém de 50 e alguém de 20 anos, este último não vai dar a mínima; já o tiozão ainda arriscaria jogar um papo. Os estaduais ainda têm sua graça porque existem pessoas que guardam no imaginário a lembrança de campeonatos gloriosos. O maior título da História do Palmeiras foi o Paulistão de 1993. Mas, assim como La Fischer, os estaduais estão longe de ser o que há de mais espetacular e só o jogo de poder atrelado à estrutura de Federações que sustenta o futebol brasileiro hoje é que os mantêm.
Tecnicamente, vencer o Campeonato Paulista é o mesmo que um Torneio de Verano argentino de quatro rodadas. No nosso caso, o efeito Vera Fischer ainda potencializa sua real importância. Mas o Paulistão traz mais problemas do que soluções, já que um eventual triunfo tende a mascarar deficiências do time e do elenco, ao mesmo passo que uma derrota pode detonar crises que não deveriam existir – afinal, é apenas a Vera Fischer, não é a Paola Oliveira.
Estamos às portas de um Derby que deve ser arrebatador, sensacional, esfuziante. Talvez aconteçam lances espetaculares ou momentos polêmicos, que se tornarão históricos. Mas será pela grandeza do Derby em si, fora do contexto do campeonato. Em linhas gerais, o trabalho do Oswaldo não poderá ser hiperavaliado caso vença o Derby – nem detonado, caso perca. E isso vale para todos os clássicos de todos os atuais estaduais do país. É apenas uma pré-temporada, longuíssima, com 19 rodadas, sendo que apenas quatro valem de fato para definir um caneco. A Placar, que também nem é mais tudo isso, já não faz mais edições especiais com os campeões estaduais.
Queremos ganhar o Paulista porque fomos obrigados a disputá-lo. Mas francamente: hoje, assim como todos os outros estaduais, é como a Vera Fischer.
E o pior é que não adianta tentar abrir conversas sobre reforma de calendário dentro deste modelo. Os estaduais já foram espremidos ao máximo. Ou os clubes se reorganizam, refundam uma organização central do futebol brasileiro para representar o país junto à Fifa e criam novas fórmulas de disputa pelo país, ou essa estrutura arcaica mantida pela CBF, usando as federações estaduais como seus feudos, ainda vai nos empurrar essas Veras por anos a fio, cujo principal consequência foi um certo 7 a 1.
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